HISTÓRIA DO TARTAN: O TECIDO QUE CRIOU A IDENTIDADE DOS ESCOCESES

26.8.26 |

 


O Tartan é usado na Escócia desde o século III d.C e se tornou um símbolo da cultura e história dos escoceses. O tecido foi proibido durante um período por razões políticas, mas alcançou status de tecido nobre quando a aristocracia escocesa e a realeza inglesa começaram a usar, popularizando os padrões que atravessaram o tempo e chegaram até os dias atuais. Leia até o fim e conheça a história do Tartan e como o tecido criou a identidade dos escoceses. Vamos ler?


*Conteúdo criado por humano


A origem do Tartan


Usado na Escócia desde o século III d.C, a origem do Tartan continua incerta. Surgiu como um tecido de feito de lã bastante resistente e durável, com padrões em forma de quadrados e linhas sobrepostas que, segundo algumas versões, eram tingidos com folhas, frutos e cascas de árvores típicas das regiões do norte da Escócia, as Terras Altas ou Highlands.


Nestas regiões habitavam os clãs, agrupamentos de pessoas- Higlenders- com um ancestral comum. Este ancestral comum dava o nome ao clã. As cores do Tartan de cada região identificavam a que clã eles pertenciam criando uma identidade. Inicialmente eram feitos com quadrados em duas cores e como o número dos clãs aumentavam com novas famílias se formando, os padrões se tornaram mais complexas sendo acrescentadas linhas sobrepostas em outras cores.


<img src="catalogo-dos-roupas-em-tartan-1759.png" alt="Catálogo dos modelos de roupas com Tartan em 1759"/>
Trajes feitos com Tartan. Via | National Museums Scotland

O Tartan foi Inicialmente criado como um xale usado para proteção contra o frio, e se transformou ao longo do tempo em uma vestimenta que os escoceses adotaram para se diferenciarem dos irlandeses que vestiam as roupas comuns da época. Os homens enrolavam em volta da cintura e prendiam com um cinto, criando a primeira versão do que conhecemos como KILT.


<img src="lord-mungo-murray-vestimenta tipica-escocesa.png" alt="Lord Mungo Murray usando traje típico escoces"/>
Lord Mungo Murray. Por Jonh W. Right-1683. Via | BBC
Esta é a primeira pintura a retratar uma pessoa de corpo inteiro vestindo
traje típico das Terras Altas. 


O Tartan e os jacobitas


E assim o Tartan simbolizou os Higlandres por um bom tempo. A Escócia seguia a religião católica enquanto o protestantismo já estava na coroa com o rei George II. Uma série de revoltas aconteceu na tentativa de derrubar o Rei protestante e restaurar a Casa Católica de Stuart que se originou na Escócia.


Em 1745 o Tartan tornou-se um símbolo de lealdade a Charles Edward Stuart, conhecido como Bonnie Prince Charlie, que liderou um exército de rebeldes escoceses, conhecidos como jacobitas, vestindo Tartans. Em 1746 aconteceu a última das revoltas em Culloden, terminando com a derrota dos jacobitas.


O Tartan proíbido


Após a derrota final dos jacobitas o traje tradicional das Terras Altas, que refletia o ambiente rural da região, foi banido, por uma lei de 1747. Não somente o Kilt, (phillabeg), mas os casacos e as meias- calças xadrez (trews) também foram proibidos por lembrarem os rebeldes escoceses. O Highlander foi forçado a usar trajes das Terras Baixas, seguindo o estilo de vestimenta europeu da época, perdendo aos poucos suas tradições, seus vínculos culturais e históricos.


O kilt e o xadrez foram mantidos apenas para uso dos soldados escoceses que serviam no exército britânico, transformando o que antes era uma vestimenta regional marginalizada, símbolo dos rebeldes, agora simboliza o poder do Estado que venceu os rebeldes. Quase quarenta anos depois, em 1782, esta lei foi revogada e o uso do Tartan liberado para os civis.


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Pintura retratando um soldado com traje Militar- 1780. Via | NMS 

O Tartan na Aristocracia


Em 1822 o Rei George IV pressionado pelos seus Ministros, fez a primeira visita à Escócia para demonstrar a unidade entre ingleses e escoceses. Nesta visita compareceu vestindo o traje típico das Terras Altas. Milhares de espectadores vestidos com Tartan, seguindo um código de vestimenta estabelecido pelo escritor Sir Walter Scott, aglomeraram-se nas ruas da capital Edimburgo para receber o Rei que permaneceu na capital por duas semanas marcando a primeira visita de um monarca ao norte da fronteira em 189 anos.


<img src="rei-george-iv-traje-tipico-escoces.png" alt= Rei George IV usando traje típico escocês"/>
Rei George IV usando traje típico escocês. Via | Wikipedia

A imagem abaixo mostra um traje xadrez feito especialmente para a ocasião de acordo com o código estabelecido por Sir. Walter Scott.


<img src= traje-masculino-escoces-1822.png" alt=Traje masculino escocês em 1822"/>
Traje escoces 1822. Via | The Scotsman

Vinte anos mais tarde a Rainha Vitória ganhou de presente do marido, o Príncipe Albert, o Castelo de Balmoral, nas Terras Altas e mandou decorar todos os aposentos com Tartan, contribuindo ainda mais para o uso massificado do tecido. Assim, a Escócia deixou de ser uma ameaça, para se tornar um destino de férias do casal Real.


Sociedade dos Highlanders


Com as Terras Altas esvaziadas de muitos de seus habitantes depois de Culloden, os aristocratas, cavalheiros e oficiais militares escoceses formaram diversos clubes e sociedades por toda a Grã-Bretanha a fim de preservar suas tradições culturais, buscando inspiração nos usos e costumes das gerações anteriores, através de objetos remanescentes, de retratos e na tradição oral. Mas o traje típico foi modificado para adaptar-se a era moderna. 


Esta modernização da vestimenta das Terras Altas na virada do século XIX gerou controvérsias. Eles divergiam sobre o que era o autêntico traje e quem tinha o direito ancestral de usá-lo. Já estabelecido como moda, novos modelos começaram a ser criados pelos alfaiates usando o Tartan, repleto de enfeites comuns na era georgina que não traduziam o caráter nem os hábitos dos escoceses. 


<img src="vestido-feito-em-tartan-era-georgiana.png" alt= "Vestido feito com Tartan com detalhes bordados na barra"/>
Vestido na Era Georgiana. Via | NMS


Os tecidos coloridos foram transformados em roupas para o vestuário do dia a dia e para ocasiões especiais, usados como capas, vestidos e roupas infantis, mas ainda mantendo a tradição de conjuntos específicos para cada clã, com padronagens exclusivas criadas pelos tecelões, inspirados em símbolos dos antepassados Higlanders. As amostras das criações eram organizadas em catálogos, com etiqueta identificando o cliente, significando o uso exclusivo do tecido. Estes catálogos garantiram a sobrevivência da tradição do Tartan.


<img src="catalogo-de-amostra-de-tartan-exclusivo-do-cla.png" alt= Catálogo de amostra de Tartan com registro do clã"/>
Catálogo de amostra de Tartan para um clã. Via | NMS


Os escoceses promovem todos os anos o Encontro Anual dos Clãs na capital Edimburgo, para celebrar sua herança cultural e sua história familiar. Pessoas de diversos países se aglomeram nas ruas para assistir o desfile dos grandes clãs com gaitas de fole e tambores dando ritmo a marcha, usando o kilt com suas respectivas padrões coloridas.


O Tartan e os punks 


Nos anos 1970, a Inglaterra atravessou uma grave crise econômica gerando milhares de desempregados, principalmente os jovens. O movimento "No Future", "Sem Futuro" foi criado e das ruas e dos bares surgiu um estilo musical que marcou a década: O Punk. O visual trash com roupas sujas e rasgadas, cabelos espetados coloridos e muitos alfinetes se tornaram a marca dos punks, incluindo também o Tartan, como uma expressão de antissistema, à semelhança da rebeldia dos jacobitas.


<img src=punks-usando-tartan.png" alt=Ponks usando Tartan"/>
Punks em Londres: Tartan como símbolo de rebeldia. Via | Pinterest

E para concluir a história do Tartan que teve sua origem na Escócia e sobrevive até hoje sempre aparecendo nas coleções de marcas globais, a marca Burberry é um exemplo. Ela ficou conhecida por criar um padrão exclusivo nas cores branco, bege e preto e vermelho incialmente para ser usado como forro nos trench coats e depois ganhou a preferência se seus consumidores e se transformou em tecido para diversos itens fabricados pela marca, incluindo o vestuário. O padrão original abaixo foi registrado em 1923; algumas fontes citam 1942 como o ano do registro da patente do padrão. Confira no link da imagem.


<img src="amostra-do-tartan-original-burberry.png" alt=Amostra do Tartan original e patenteado marca Burberry"/>
Tartan original da Burberry- Via | The Scottish Register of Tartans 

E por hoje é isso.

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 FONTES

 https://www.nationalgeographic.com/travel/article/scotland-tartan-plaid-real-history

https://www.nms.ac.uk/discover-catalogue/highland-style-tartan-trends-in-georgian-britain

https://www.historic-uk.com/HistoryUK/HistoryofScotland/The-History-of-Tartan/


Outras fontes consultadas estão nos links das imagens.






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