A maioria dos historiadores defende que no final da Idade Média na Europa Ocidental, foi o período da origem da moda. Vários acontecimentos contribuíram para que as primeiras mudanças no vestuário masculino e feminino marcassem seu início. Quais foram estes acontecimentos que modificaram a sociedade e estimularam as mudanças no vestuário? Neste artigo trazemos um panorama deste período que é a base dos estudos sobre a história da moda. Vamos ler?
*Conteúdo produzido por humano
Onde e quando a moda nasceu
Para falar sobre a origem
da moda é necessário delimitar o local e a época onde surgiu, para que haja
um entendimento sobre as circunstâncias que levaram ao estabelecimento deste
sistema de renovação constante que caracteriza a moda.
Autores como Massimo Baldini (2005), Fréderic Godart (2010), Giles Lipovetsky (2009) e James Laver (1982) concordam que a moda surgiu na Europa Ocidental na segunda metade do século XIV ou no XV no período chamado "Primeira Modernidade". Quanto ao local, alguns citam as cortes de Borgonha, outros a Itália, na cidade de Florença e que daí a moda se espalhou por toda a Europa.
O que marca o início da moda
Estas afirmações sobre a origem da moda se baseiam no aparecimento de uma nova forma de
vestuário que surgiu a partir de 1350 diferenciando o sexo masculino do
feminino. Para o masculino, um gibão curto, apertado e acolchoado para realçar
o peito, usado com um cinto nos quadris e calções longos e apertados desenhando
as formas das pernas.
As mulheres adotaram um vestido longo e justo até a cintura moldando o corpo com um corpete endurecido semelhante a um espartilho; estas formas realçavam as ancas enquanto os ombros e o colo foram descobertos pelos decotes. O véu foi abandonado, usado apenas por viúvas e freiras. Os novos tipos de vestuário tinham um forte apelo erótico ao revelarem as formas do corpo, tornando-se assim trajes de sedução. Nesta época, um cronista escreveu:
"Cerca de 1350, os homens, os nobres em particular, os escudeiros e a sua comitiva, alguns burgueses e seus servidores vestiam roupas tão curtas e estreitas que deixaram vislumbrar o que o pudor impõe que se esconda." (Baldini, 2005, pp.44)
Estas novidades causaram reações, críticas e desaprovação dos bispos, pregadores, e moralistas da época, julgando indecentes o gibão curto, os calções apertados e a nudez do colo feminino. Eram os tempos de uma sociedade fechada, marcada pela pouca ou nenhuma aceitação de inovações, que valorizava suas tradições, e o abandono do traje longo e folgado comum aos dois sexos, foi uma mudança tão radical no vestuário que não poderia despertar reações diferentes.
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| Iluminura com cena do poema francês "Romance da Rosa" As novas formas do vestuário. Via | FIT |
As transformações da sociedade
Mas estas mudanças no vestuário não surgiram por acaso. A
sociedade da Europa vivia grandes transformações se preparando para respirar os
ares da modernidade que estava a caminho. Os séculos IX e X foram marcados por
invasões de povos vindos principalmente do norte causando desordem e
insegurança, uma epidemia que dizimou grande parte da população, o enfraquecimento
da economia e nascimento do feudalismo.
O feudalismo foi uma consequência da fragilidade dos reis em
defender seus países. Com o fim do Império Carolíngio, desmembrou-se a unidade
política dando origem a pequenos reinos governados por dinastias locais. Mas
eram reinos frágeis que não tiveram capacidade de resistir aos invasores. Os
grandes Senhores Feudais, reunidos com o povo, saíram em defesa de suas terras
(feudos), fortalecendo seu poder transformando os feudos em unidades autônomas,
quase ignorando a autoridade do Rei, que tinha o poder por direito, mas não
exercia de fato.
Os Senhores Feudais estabeleciam leis inclusive as duras jornadas de trabalho, tinham o poder de justiça e cobravam pesados impostos, o
que contribuiu para o aumento de suas riquezas. Com todo este poder e dinheiro,
aspiravam uma vida luxuosa semelhante a da nobreza aristocrática. Então neste
momento, temos duas nobrezas ricas: a feudal e a aristocrática.
Mas as riquezas chegariam também a uma nova classe: a burguesia,
habitantes das cidades (burgos) que viviam do comércio. No final do século IX e
durante o século X, as invasões foram paralisadas, criando condições favoráveis
para o crescimento das cidades e o desenvolvimento do comércio.
As Cruzadas tiveram um importante papel para a economia da
Europa. Estas expedições militares–cristãs partiam para o Oriente com o
pretexto de retomar as rotas dos cristãos até a Terra Santa, já sob o domínio
mulçumano. Mas haviam outros interesses envolvidos como a abertura de rotas
para as transações comerciais com os povos do Oriente.
Para as cidades italianas como Gênova e Veneza, era
vantajoso que as Cruzadas utilizassem suas embarcações para chegarem às terras
orientais, pois tinham interesse no aumento de seus lucros com as transações
comerciais com o Oriente, envolvendo produtos de grande procura como o açúcar,
as sedas, porcelanas, tapetes, artigos de luxo e especiarias.
Veneza, que já tinha estreitas ligações com os muçulmanos,
estabeleceu um forte monopólio comercial obtendo nos portos do Mediterrâneo
Oriental os produtos desejados, que eram revendidos a preços altos na Europa.
Esta expansão e monopólio do comércio enriqueceram os burgueses. O objetivo foi
alcançado? Bem, as Cruzadas não deram resultado, mas o aumento dos lucros e da
riqueza, sim.
Mas as Cruzadas promoveram a intensa atividade mercantil
Ocidente-Oriente e a Europa pode conhecer os refinamentos do Oriente que
contribuiu para mudanças da vida feudal. Com o comércio, o luxo oriental
começou a difundir-se pelas cortes, transformando os hábitos da sociedade, que
aumentou seu conforto material com os castelos decorados com tapetes e móveis
de alto padrão. A roupa tornou-se mais luxuosa com o uso de tecidos finos e
joias. A alimentação ficou mais requintada com as especiarias e frutas
orientais.
O enriquecimento da burguesia
Fora dos castelos, os burgueses, também aumentaram seu
padrão de luxo e refinamento. As cidades cresceram e prosperaram cada vez mais
com a intensificação das atividades comerciais. As cidades italianas estão
neste momento no centro da economia e vão surgindo aí os banqueiros, homens de
negócios e comerciantes que formam uma alta burguesia enriquecida.
As monarquias queriam retomar seu poder de volta, os
burgueses viam suas atividades mercantis dificultadas pelos pesados impostos e
por alguns produtos proibidos nos feudos por questões religiosas. E ambos se
tornaram aliados para enfraquecerem o feudalismo, que via aos poucos suas
atividades agrícolas diminuindo, enquanto o comércio crescia cada vez mais. Desta
aproximação com a realeza, os burgueses ricos a partir dos séculos XIII e XIV, elevaram
seu padrão se vestindo como os nobres, coberto de joias e de tecidos preciosos,
rivalizando na aparência com a nobreza de sangue e transformando o vestuário e
seus hábitos em signos de poder econômico.
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| Ilustração do Saltério de Luttrell- 1325. Cavaleiro e duas damas com o vestuário da Idade Média. Via | Historic UK |
Sobre o Saltério de Luttrell
O Saltério de Luttrell é um manuscrito decorado (iluminado)
da Idade Média. Foi escrito e iluminado por volta de 1325 para um proprietário
de terras e cavaleiro , Sir Geoffrey Luttrell de Irnham, em Lincolnshire
(Inglaterra).
Trata-se principalmente de um livro de salmos e orações em
latim. É composto por 309 páginas de pergaminho resistente e bem preparado ,
cada uma medindo cerca de 360 x 245 mm. Foi reencadernado em couro marroquino
moderno marrom-escuro.
As corporações de ofícios e a moda
Este alto padrão de luxo que chegou à Europa, exigia
produtos de qualidade. No século XIII, os burgueses ligados à indústria criarem
as corporações dos ofícios, onde artesãos das mais diversas áreas aprimoravam
as técnicas de fabricação na indústria e na tinturaria, garantindo a qualidade
dos produtos que eram rigorosamente controlados.
Nestas corporações
também eram estabelecidos os preços do mercado, evitando a concorrência através
de preços baixos. Estas corporações criavam ainda um fundo de assistência para
aqueles que, por algum motivo ficassem impedidos de trabalhar, por problemas de
saúde ou por idade.
A moda foi beneficiada por estes critérios de qualidade das
corporações. No século XIV em Paris já existiam neste período profissões
consagradas ao vestuário e aos acessórios: alfaiates de vestidos, costureiras,
sapateiros, fabricantes de malhas. Na Itália, já se formavam artesãos capazes
de produzir e fornecer produtos para penteados, como pentes e escovas e ferros
de frisar, de acordo com os ditames da moda; os cabeleireiros de Florença
ficaram famosos assim como os perfumistas de Milão.
O burguês define assim o ideal de riqueza: a riqueza material e o conforto tornaram-se o supremo objetivo dos homens que trabalhavam cada vez mais para o aumento dos negócios e dos lucros. Um exemplo destes burgueses ricos e de padrão elevado são os Médicis de Florença, prósperos banqueiros que exercerão um poder significativo para o desenvolvimento da cultura com o Humanismo e mais tarde nas artes com o Renascimento.
O Humanismo e a valorização do homem
No período conhecido como Trecento, que corresponde aos anos
1300, marca a fase inicial do Humanismo que teve início na Itália,
sobretudo em Florença. Os estudos dos antigos escritos da cultura grega que
chegavam pelas mãos dos eruditos vindos de Constantinopla, influenciaram o modo
de pensar da sociedade.
Este movimento intelectual questionava a
visão do mundo extraterreno pregado pela Igreja, valorizava o homem como um ser
autônomo, mais independente, com um pensamento mais individual e não mais
universal. Um homem que defendia os prazeres e o gozo do tempo presente.
Através da arte e da
literatura cria-se o conceito de beleza ideal na França e na Itália inspirando
todos os artistas e todos os poetas como Dante, Petrarca, Boccaccio, Rafael a
celebrarem a perfeição do corpo feminino e desperta o cuidado com a aparência.
E assim é que por volta de 1350, surgem as novas formas do vestuário, onde são
revelados os dotes e os encantos do corpo até então cobertos por pesadas vestes
semelhantes tanto para os homens como para as mulheres, conferindo à roupa o
símbolo dessa busca pela beleza que marca, segundo os historiadores, a origem da moda.
Estas mudanças iniciadas com o Humanismo vão promover o
florescimento das artes e da cultura que transformará a sociedade. É o período
do Renascimento, nascido na Itália, que marca o fim da Idade Média e o início
da Idade Moderna, quando a moda experimentará o luxo e a beleza nas cortes e na
burguesia. Sobre a importância e as mudanças neste período falaremos em outro
artigo, porque tem muito assunto... Fica por aqui para conhecer ainda mais as
origens e o estabelecimento da moda.


