ORIGEM DA MODA: A SOCIEDADE DA IDADE MÉDIA NA EUROPA OCIDENTAL

17.8.26 |

A maioria dos historiadores defende que no final da Idade Média na Europa Ocidental, foi o período da origem da moda. Vários acontecimentos contribuíram para que as primeiras mudanças no vestuário masculino e feminino marcassem seu início. Quais foram estes acontecimentos que modificaram a sociedade e estimularam as mudanças no vestuário?  Neste artigo trazemos um panorama deste período que é a base dos estudos sobre a história da moda. Vamos ler?


*Conteúdo produzido por humano


Onde e quando a moda nasceu


Para falar sobre a origem da moda é necessário delimitar o local e a época onde surgiu, para que haja um entendimento sobre as circunstâncias que levaram ao estabelecimento deste sistema de renovação constante que caracteriza a moda.


Autores como Massimo Baldini (2005), Fréderic Godart (2010), Giles Lipovetsky (2009) e James Laver (1982) concordam que a moda surgiu na Europa Ocidental na segunda metade do século XIV ou no XV no período chamado "Primeira Modernidade". Quanto ao local, alguns citam as cortes de Borgonha, outros a Itália, na cidade de Florença e que daí a moda se espalhou por toda a Europa.


O que marca o início da moda


Estas afirmações sobre a origem da moda se baseiam no aparecimento de uma nova forma de vestuário que surgiu a partir de 1350 diferenciando o sexo masculino do feminino. Para o masculino, um gibão curto, apertado e acolchoado para realçar o peito, usado com um cinto nos quadris e calções longos e apertados desenhando as formas das pernas.


As mulheres adotaram um vestido longo e justo até a cintura moldando o corpo com um corpete endurecido semelhante a um espartilho; estas formas realçavam as ancas enquanto os ombros e o colo foram descobertos pelos decotes. O véu foi abandonado, usado apenas por viúvas e freiras. Os novos tipos de vestuário tinham um forte apelo erótico ao revelarem as formas do corpo, tornando-se assim trajes de sedução. Nesta época, um cronista escreveu:


"Cerca de 1350, os homens, os nobres em particular, os escudeiros e a sua comitiva, alguns burgueses e seus servidores vestiam roupas tão curtas e estreitas que deixaram vislumbrar o que o pudor impõe que se esconda." (Baldini, 2005, pp.44)


Estas novidades causaram reações, críticas e desaprovação dos bispos, pregadores, e moralistas da época, julgando indecentes o gibão curto, os calções apertados e a nudez do colo feminino. Eram os tempos de uma sociedade fechada, marcada pela pouca ou nenhuma aceitação de inovações, que valorizava suas tradições, e o abandono do traje longo e folgado comum aos dois sexos, foi uma mudança tão radical no vestuário que não poderia despertar reações diferentes.


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Iluminura com cena do poema francês "Romance da Rosa"
As novas formas do vestuário. Via | FIT

As transformações da sociedade


Mas estas mudanças no vestuário não surgiram por acaso. A sociedade da Europa vivia grandes transformações se preparando para respirar os ares da modernidade que estava a caminho. Os séculos IX e X foram marcados por invasões de povos vindos principalmente do norte causando desordem e insegurança, uma epidemia que dizimou grande parte da população, o enfraquecimento da economia e nascimento do feudalismo.


O feudalismo foi uma consequência da fragilidade dos reis em defender seus países. Com o fim do Império Carolíngio, desmembrou-se a unidade política dando origem a pequenos reinos governados por dinastias locais. Mas eram reinos frágeis que não tiveram capacidade de resistir aos invasores. Os grandes Senhores Feudais, reunidos com o povo, saíram em defesa de suas terras (feudos), fortalecendo seu poder transformando os feudos em unidades autônomas, quase ignorando a autoridade do Rei, que tinha o poder por direito, mas não exercia de fato.


Os Senhores Feudais estabeleciam leis inclusive as duras jornadas de trabalho, tinham o poder de justiça e cobravam pesados impostos, o que contribuiu para o aumento de suas riquezas. Com todo este poder e dinheiro, aspiravam uma vida luxuosa semelhante a da nobreza aristocrática. Então neste momento, temos duas nobrezas ricas: a feudal e a aristocrática.


Mas as riquezas chegariam também a uma nova classe: a burguesia, habitantes das cidades (burgos) que viviam do comércio. No final do século IX e durante o século X, as invasões foram paralisadas, criando condições favoráveis para o crescimento das cidades e o desenvolvimento do comércio.


As Cruzadas tiveram um importante papel para a economia da Europa. Estas expedições militares–cristãs partiam para o Oriente com o pretexto de retomar as rotas dos cristãos até a Terra Santa, já sob o domínio mulçumano. Mas haviam outros interesses envolvidos como a abertura de rotas para as transações comerciais com os povos do Oriente.


Para as cidades italianas como Gênova e Veneza, era vantajoso que as Cruzadas utilizassem suas embarcações para chegarem às terras orientais, pois tinham interesse no aumento de seus lucros com as transações comerciais com o Oriente, envolvendo produtos de grande procura como o açúcar, as sedas, porcelanas, tapetes, artigos de luxo e especiarias.


Veneza, que já tinha estreitas ligações com os muçulmanos, estabeleceu um forte monopólio comercial obtendo nos portos do Mediterrâneo Oriental os produtos desejados, que eram revendidos a preços altos na Europa. Esta expansão e monopólio do comércio enriqueceram os burgueses. O objetivo foi alcançado? Bem, as Cruzadas não deram resultado, mas o aumento dos lucros e da riqueza, sim.


Mas as Cruzadas promoveram a intensa atividade mercantil Ocidente-Oriente e a Europa pode conhecer os refinamentos do Oriente que contribuiu para mudanças da vida feudal. Com o comércio, o luxo oriental começou a difundir-se pelas cortes, transformando os hábitos da sociedade, que aumentou seu conforto material com os castelos decorados com tapetes e móveis de alto padrão. A roupa tornou-se mais luxuosa com o uso de tecidos finos e joias. A alimentação ficou mais requintada com as especiarias e frutas orientais.


O enriquecimento da burguesia


Fora dos castelos, os burgueses, também aumentaram seu padrão de luxo e refinamento. As cidades cresceram e prosperaram cada vez mais com a intensificação das atividades comerciais. As cidades italianas estão neste momento no centro da economia e vão surgindo aí os banqueiros, homens de negócios e comerciantes que formam uma alta burguesia enriquecida.


As monarquias queriam retomar seu poder de volta, os burgueses viam suas atividades mercantis dificultadas pelos pesados impostos e por alguns produtos proibidos nos feudos por questões religiosas. E ambos se tornaram aliados para enfraquecerem o feudalismo, que via aos poucos suas atividades agrícolas diminuindo, enquanto o comércio crescia cada vez mais. Desta aproximação com a realeza, os burgueses ricos a partir dos séculos XIII e XIV, elevaram seu padrão se vestindo como os nobres, coberto de joias e de tecidos preciosos, rivalizando na aparência com a nobreza de sangue e transformando o vestuário e seus hábitos em signos de poder econômico.  


Ilustração do Saltério de Luttrell- 1325.
Cavaleiro e duas damas com o vestuário da Idade Média.
Via | Historic UK


Sobre o Saltério de Luttrell

O Saltério de Luttrell é um manuscrito decorado (iluminado) da Idade Média. Foi escrito e iluminado por volta de 1325 para um proprietário de terras e cavaleiro , Sir Geoffrey Luttrell de Irnham, em Lincolnshire (Inglaterra).


Trata-se principalmente de um livro de salmos e orações em latim. É composto por 309 páginas de pergaminho resistente e bem preparado , cada uma medindo cerca de 360 ​​x 245 mm. Foi reencadernado em couro marroquino moderno marrom-escuro.


As corporações de ofícios e a moda


Este alto padrão de luxo que chegou à Europa, exigia produtos de qualidade. No século XIII, os burgueses ligados à indústria criarem as corporações dos ofícios, onde artesãos das mais diversas áreas aprimoravam as técnicas de fabricação na indústria e na tinturaria, garantindo a qualidade dos produtos que eram rigorosamente controlados.


Nestas corporações também eram estabelecidos os preços do mercado, evitando a concorrência através de preços baixos. Estas corporações criavam ainda um fundo de assistência para aqueles que, por algum motivo ficassem impedidos de trabalhar, por problemas de saúde ou por idade.


A moda foi beneficiada por estes critérios de qualidade das corporações. No século XIV em Paris já existiam neste período profissões consagradas ao vestuário e aos acessórios: alfaiates de vestidos, costureiras, sapateiros, fabricantes de malhas. Na Itália, já se formavam artesãos capazes de produzir e fornecer produtos para penteados, como pentes e escovas e ferros de frisar, de acordo com os ditames da moda; os cabeleireiros de Florença ficaram famosos assim como os perfumistas de Milão.


O burguês define assim o ideal de riqueza: a riqueza material e o conforto tornaram-se o supremo objetivo dos homens que trabalhavam cada vez mais para o aumento dos negócios e dos lucros. Um exemplo destes burgueses ricos e de padrão elevado são os Médicis de Florença, prósperos banqueiros que exercerão um poder significativo para o desenvolvimento da cultura com o Humanismo e mais tarde nas artes com o Renascimento.


O Humanismo e a valorização do homem


No período conhecido como Trecento, que corresponde aos anos 1300, marca a fase inicial do Humanismo que teve início na Itália, sobretudo em Florença. Os estudos dos antigos escritos da cultura grega que chegavam pelas mãos dos eruditos vindos de Constantinopla, influenciaram o modo de pensar da sociedade.


Este movimento intelectual questionava a visão do mundo extraterreno pregado pela Igreja, valorizava o homem como um ser autônomo, mais independente, com um pensamento mais individual e não mais universal. Um homem que defendia os prazeres e o gozo do tempo presente.


 Através da arte e da literatura cria-se o conceito de beleza ideal na França e na Itália inspirando todos os artistas e todos os poetas como Dante, Petrarca, Boccaccio, Rafael a celebrarem a perfeição do corpo feminino e desperta o cuidado com a aparência. E assim é que por volta de 1350, surgem as novas formas do vestuário, onde são revelados os dotes e os encantos do corpo até então cobertos por pesadas vestes semelhantes tanto para os homens como para as mulheres, conferindo à roupa o símbolo dessa busca pela beleza que marca, segundo os historiadores, a origem da moda.


Estas mudanças iniciadas com o Humanismo vão promover o florescimento das artes e da cultura que transformará a sociedade. É o período do Renascimento, nascido na Itália, que marca o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna, quando a moda experimentará o luxo e a beleza nas cortes e na burguesia. Sobre a importância e as mudanças neste período falaremos em outro artigo, porque tem muito assunto... Fica por aqui para conhecer ainda mais as origens e o estabelecimento da moda.

 

E por hoje é isso. 
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CRÉDITOS


FONTES

Lipovetsky, Giles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas.São Paulo: Companhia das Letras,2009.

Baldini, Massimo. A invenção da moda. Edição 70, LTDA. Janeiro 2009.

Godart, Frédéric. Sociologia da moda / Frédéric Godart; tradução de Lea P. Zylberclicht. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010.

Becker, Idel. Pequena história da Civilização Ocidental. Companhia Editora Nacional, 1971.  




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